Entre dois prédios residenciais, um terreno de quase duzentos metros quadrados ficou abandonado por anos — acumulando lixo, mato e reclamações. Hoje é uma horta comunitária com canteiros divididos, composteira compartilhada e mais de trinta famílias na rotação de cuidados semanais.
A transformação começou com um bilhete no portão. "Alguém se interessa em cuidar deste espaço?", perguntava o cartaz colado por Luís Ferreira, morador do bloco A. Respostas chegaram pelo grupo do condomínio. Em três reuniões, definiram regras: nada de agrotóxico, divisão igual dos canteiros, turno mínimo de duas horas por semana por família.
Do lixo à colheita
Os primeiros sábados foram de mutirão. Retiraram entulho, cercaram a área com paletes reaproveitados e pediram doação de mudas a viveiros da região. Um agrônomo aposentado, morador do bloco B, ofereceu orientação gratuita sobre solo e rotação de culturas.
Hoje crescem alface, rúcula, tomate cereja, manjericão e abóbora. Parte da colheita vai para famílias participantes; o excedente é vendido na feira de domingo da praça central, com renda revertida para compra de sementes e ferramentas.
"Meus filhos nunca tinham visto uma planta sair da terra. Agora eles têm canteiro próprio." — Carla Dias, participante do projeto
Desafios e acordos
Nem tudo foi simples. Houve discussão sobre horários de rega, uso de música no sábado de manhã e limite de visitantes. O grupo resolveu por assembleia mensal — ata registrada em caderno na portaria do bloco A. Quem falta três turnos seguidos perde o canteiro, mas pode voltar quando houver vaga.
A construtora dona do terreno, contactada pelos moradores, autorizou uso por prazo indeterminado mediante manutenção do espaço. Não há contrato formal, apenas termo assinado por representantes dos dois condomínios e um responsável da empresa.
Outros bairros da cidade já pediram visita para replicar o modelo. As coordenadoras preferem receber um grupo por mês, aos sábados à tarde, quando a horta está em pleno funcionamento. Endereço: travessa das Palmeiras, entre os blocos A e B — portão lateral, sempre aberto nos sábados das 8h às 12h.
O que vem por aí
Para o segundo semestre, o grupo planeja oficina de compostagem aberta a quem não tem canteiro — usando restos de cozinha trazidos de casa. Também estudam parceria com a feira de domingo para vender mudas de temperos a preço simbólico. Nada disso depende de edital: é acordo entre moradores e produtores que já se conhecem de vista.
Quem quiser entrar na lista de espera para canteiro pode deixar nome e telefone na portaria do bloco A. A fila hoje tem cerca de quinze famílias; estimativa de vaga nova é de dois a três meses, conforme desistências. Visitantes são bem-vindos, desde que respeitem o horário combinado e não pisen canteiros alheios.